ATÉ QUE PONTO SALÁRIO, BENEFÍCIOS E RECONHECIMENTO CONSEGUEM SUSTENTAR O ENGAJAMENTO DE UM PROFISSIONAL NO LONGO PRAZO? Salário justo, benefícios adequados e reconhecimento são indispensáveis. Não devemos romantizar o propósito para justificar remuneração inadequada, sobrecarga ou precarização. Ao mesmo tempo, esses fatores, isoladamente, não sustentam uma conexão profunda no longo prazo. Em meu trabalho com organizações de diferentes segmentos, observo que recompensas externas podem reduzir a insatisfação e estimular o desempenho, mas dificilmente respondem sozinhas às necessidades humanas de coerência, crescimento, pertencimento e contribuição. O salário explica por que uma pessoa precisa trabalhar; o sentido ajuda a explicar por que vale a pena colocar parte de sua vida naquele trabalho. O engajamento mais consistente nasce da combinação entre condições dignas, boas relações, autonomia, desenvolvimento e a percepção de que o esforço realizado produz algum impacto relevante. A RESPONSABILIDADE POR ENCONTRAR SENTIDO NO TRABALHO É APENAS DO PROFISSIONAL OU AS EMPRESAS TAMBÉM PRECISAM CRIAR AMBIENTES QUE FAVOREÇAM ESSA CONEXÃO? Essa é uma responsabilidade compartilhada. O profissional precisa conhecer seus valores, reconhecer seus talentos, compreender suas necessidades e assumir uma postura ativa diante da própria trajetória. Mas nenhuma pessoa consegue sustentar sentido indefinidamente em um ambiente incoerente, abusivo ou que transforma seres humanos apenas em recursos produtivos. Acompanhando grandes empresas em processos de cultura, liderança e propósito, aprendi que a organização não pode entregar um propósito pronto para cada colaborador, mas pode criar as condições para que essa conexão aconteça. Isso envolve oferecer clareza sobre o impacto do trabalho, coerência entre discurso e prática, liderança humanizada, autonomia, reconhecimento, oportunidades de desenvolvimento e relações de confiança. Propósito organizacional não é uma frase na parede. É aquilo que as decisões, as prioridades e os comportamentos da empresa tornam verdadeiro todos os dias. COMO DIFERENCIAR UMA FASE RUIM, QUE PODE ACONTECER EM QUALQUER EMPREGO, DE UM SINAL DE QUE REALMENTE CHEGOU A HORA DE REPENSAR A CARREIRA OU A RELAÇÃO COM O TRABALHO? Uma fase ruim costuma estar associada a fatores identificáveis e temporários: um projeto difícil, uma mudança de liderança, um conflito específico ou um período de sobrecarga. Quando esses fatores são resolvidos ou quando há descanso, a energia tende a retornar. Já a necessidade de repensar a carreira aparece quando o desconforto se torna persistente, atravessa diferentes contextos e revela uma incompatibilidade mais profunda entre o trabalho e aquilo que a pessoa valoriza, deseja desenvolver ou pretende oferecer ao mundo. Antes de tomar uma decisão, é importante investigar: o problema está na profissão, na empresa, na liderança, na função, na rotina ou na forma como estou me relacionando com o trabalho? Essa diferenciação é fundamental. Em muitos processos de mentoria, percebo que a pessoa chega acreditando que precisa abandonar completamente sua carreira, quando, na verdade, precisa redesenhar responsabilidades, estabelecer limites, mudar de ambiente ou recuperar a conexão com quem é beneficiado pelo que faz. Não devemos tomar decisões definitivas com base apenas em emoções temporárias, mas também não devemos transformar um sofrimento permanente em algo normal. PARA ALGUÉM QUE HOJE SE SENTE DESENGAJADO, MAS NÃO PODE SIMPLESMENTE PEDIR DEMISSÃO OU MUDAR DE PROFISSÃO, QUAL SERIA O PRIMEIRO PASSO PRÁTICO PARA COMEÇAR A RECONSTRUIR SENTIDO NA VIDA PROFISSIONAL? O primeiro passo é deixar de fazer apenas a pergunta “Como sair daqui?” e começar a perguntar “O que ainda posso transformar aqui?”. Recomendo um pequeno inventário de sentido: identificar quais atividades drenam energia, quais despertam alguma vitalidade, quais talentos estão subutilizados, quais valores não estão encontrando espaço, quem é beneficiado pelo trabalho realizado e qual impacto poderia ser ampliado. Trabalhando com profissionais de diferentes culturas e países, percebi que a reconstrução do sentido raramente começa com uma decisão grandiosa. Geralmente, ela começa com um movimento concreto: aproximar-se de quem recebe o impacto do seu trabalho, assumir uma nova responsabilidade, desenvolver uma habilidade, melhorar uma relação ou ressignificar uma tarefa aparentemente burocrática a partir de sua contribuição final. Nem sempre podemos mudar imediatamente de trabalho, mas quase sempre podemos começar a mudar nossa relação com ele. O propósito pode ser reconstruído por meio de pequenos atos de coerência, evolução e serviço. Antes de se tornar uma grande mudança de carreira, muitas vezes ele começa como uma nova maneira de estar presente na própria vida. Q Siga: @kikokislansky +E N T R E V I S TA “Não precisamos amar cada tarefa do nosso trabalho, mas precisamos encontrar nele algo que mobilize nossa energia, desperte nossa vitalidade e nos faça querer continuar contribuindo.” 1 2 OUTUBRO’ 2026 YACHT MAIS
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