Sugestão daAcomac-BA PorDa Redação* l FotosDivulgação RevistaAcomac Bahia l 51 Omapa do tesouro Milhões de jovens se debruçam neste fim de semana sobre as provas do Enem, teste que pode lhes abrir a porta para a universidade e para o futuro. É um passo natural: nessa fase da vida, em qualquer lugar do mundo algum tipo de avaliação servirá de funil para as boas faculdades. Mas a generalização para aí. A diferença - enorme - está no tipo de ensino que encaminha os jovens ao exame que definirá sua vida; no Brasil, como se sabe, ele é de baixíssima qualidade. A receita básica para virar o jogo está no livro As Crianças Mais Inteligentes do Mundo (Editora Três Estrelas), recém-lançado no Brasil, no qual a jornalista americana Amanda Ripley esmiuça as reformas que fizeram de três países - Finlândia, Coreia do Sul e Polônia - verdadeiras fábricas de bons alunos. O motor da transformação não foi uma população de jovens superdotados (apesar do que sugere o título superlativo), mas sim um conjunto de iniciativas de governos para enxugar e modernizar currículos, treinar e retreinar professores, tendo a meritocracia como régua de todas as decisões e incutindo nos alunos o ideal de estar sempre entre os primeiros. O resultado, em números: Coreia (4º), Finlândia (7º) e Polônia (12º) estão entre os países mais bem avaliados no Brasil, o 57º (entre 65). Não se trata de investir mais dinheiro e esperar que a excelência brote por geração espontânea, enfatiza o livro. Campeões mundiais em gastos por aluno, os Estados Unidos apenas patinam entre os medianos, na 29ª posição no Pisa. Os realmente bons em sala de aula souberam voltar os olhos para o essencial: o professor. As reformas no ensino desses países (a partir dos anos 1960 na Finlândia e na Coreia e do fim dos 1990 na Polônia) cuidaram de tornar a carreira docente competitiva e atraente para os melhores. O estudante finlandês que quer entrar na faculdade de pedagogia preLivro mostra como Finlândia, Coreia do Sul e Polônia transformaram suas escolas em fábricas de bons alunos. Para o Brasil, é uma lição atrás da outra cisa estar entre os 30% com as notas mais altas na escola (no Brasil, ele vem justamente da banda dos 30% piores da classe). Na Coreia, o professor chega a ser um pop star, tamanha a admiração que desperta. Ganha bem, mas também é vigiado de perto no cumprimento de metas e na preparação dos alunos para enfrentar a concorrência, muito mais intensa em um mundo sem fronteiras. Os estudantes, por sua vez, passaram a encarar a escola com mais dedicação, visto que, no sistema que privilegia o mérito, só passa quem aprende, e bem. Para entender melhor essas transformações e identificar a divisa entre o médio e o ótimo, Amanda acompanhou sistematicamente, por um ano, a experiência de alunos de intercâmbio americanos em escolas da Finlândia, Coreia do Sul e Polônia. Notou que um dos fatores determinantes do êxito desses três países é o rigor que impera na sala de aula, seja por parte dos alunos, que não faltam, cumprem todas as tarefas e se curvam à disciplina, seja por parte dos professores, sem condescendência com quem fica para trás. Amanda relata a conversa com um professor que dava aulas a uma classe de filhos de imigrantes na Finlândia. “Não penso na origem social e familiar deles”, disse. “Tenho de educá-los. Se pensasse nessas coisas, acabaria dando notas melhores mesmo a um desempenho ruim.” Rigor é conceito igualmente decisivo na Coreia do Sul - embora lá extrapole todos os limites. Povoa o país uma multidão de pais e filhos obcecados com provas e notas, porque estar entre os primeiros da turma é a única forma de entrar em uma das três universidade de elite coreanas, o sonho dourado nacional. Por mais cruel que seja, porém, essa “cultura de sadomasoquismo educacional”, como define a autora, funciona melhor do que um sistema educacional indiferente. “As crianças aprendem a pensar criticamente, a argumentar e resolver problemas, ou seja, saem preparadas para o mundo moderno”, resumiu Amanda. A demonstração mais cabal do tipo de percepção que promove a excelência na educação aparece em um diálogo entre a estudante americana Kim, de 15 anos, e suas colegas na escola finlandesa. “Por que vocês levam a escola tão a sério?”, pergunta Kim, pasma. “De que outro jeito vamos conseguir nos formar, ir para a universidade e arranjar um bom emprego?”, rebatem as meninas, mais pasmas ainda. Nos países campeões do ensino, essa simplicidade de propósitos não é obra do acaso. Em As Crianças Mais Inteligentes do Mundo - best-seller incluído na lista de melhores livros de 2013 da revista The Economist e dos jornais Wall Street Journal e Washington Post -, aprende-se que ela é fruto de um sistema que leva o mérito às últimas consequências e de uma cultura que produz professores e alunos altamente responsáveis. No fim da linha, há o incentivo de um exame definitivo, que exige preparação intensa. E, no começo de tudo, um governo que enfrenta a própria inércia e interesses poderosos (políticos, sindicais, familiares, burocráticos) para, enfim, fazer a indispensável lição de casa. No Brasil, ela ainda está em branco. h * Texto de Lizia Bydlowki, extraído da Revista Veja (edição de novembro de 2014)
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