Yacht 122

o que estamos buscando quando falamos com a máquina? A inteligência artificial como “terapeuta”: Vivemos na era da urgência. Uma era em que a sensação de “estar estressado” acompanha muitos de nós. E o que nos acompanha também é a busca incessante por resultados através de “atalhos”, de caminhos curtos e que parecem ser indolores. Segundo dados recentes, cerca de 12 milhões de brasileiros já utilizam a inteligência artificial como uma espécie de terapeuta. Esse número não fala apenas sobre avanço tecnológico, mas sobre um vazio relacional crescente e uma urgência silenciosa: a de ser ouvido, acolhido e compreendido. Mas então, por que não procurar um profissional capacitado e especializado para exercer essa função? Um dos pontos principais que percebo é a resistência ao acompanhamento psicológico, não apenas em passar pelo processo, que em muitos casos é visto como duradouro, mas também pelo fato de que, para elaborarmos nossas questões subjetivas, é preciso não apenas falar sobre a dor, como escutar a si mesmo e, digamos assim, “futucar” a ferida. Ou seja, encarar nossos próprios medos, nossas dores mais profundas e silenciosas, para que então possamos elaborá-las e ressignificá-las. A IA oferece respostas rápidas, palavras que confortam e até uma sensação de companhia, mas nem sempre as palavras que nos confortam são as que necessariamente precisamos ouvir. Como dizia Freud, o pai da psicanálise, é preciso repetir para poder elaborar. Às vezes, em terapia, voltamos aos mesmos lugares, pessoas ou situações, não por fraqueza, mas porque ainda há algo ali pedindo compreensão. A IA pode, de fato, ser uma ferramenta de apoio, mas é preciso cuidado para que o conforto imediato não substitua o encontro humano, onde o processo terapêutico realmente acontece. A tecnologia não sente. Ela não percebe o tremor na voz, a pausa carregada de dor, o olhar que tenta disfarçar o choro, o silêncio. A escuta terapêutica é viva, sensível, construída na presença e na escuta ativa. O psicólogo não apenas se pauta na teoria, interpretando palavras e fazendo intervenções necessárias, mas se conecta com histórias, emoções e significados. Cada sujeito é subjetivo, é único e, por isso, carrega uma história de vida singular diante de todas as suas vivências passadas, uma verdadeira bagagem emocional, o que eu costumo chamar de “nossa bagunça emocional”. Essa dimensão relacional é o que possibilita o verdadeiro processo, permitindo ressignificar dores e sofrimentos emocionais, algo que não pode ser reproduzido por uma máquina. Quando o sofrimento emocional é compartilhado com uma IA, o risco é que a pessoa encontre respostas sem elaboração, sem diferenciar as POR NILIANE BRITO (CRP 03/12433) - @NILIBRITO +COM P O R TAM E N TO histórias de vida e a singularidade de cada sujeito. O perigo disso é se afastar, pouco a pouco, da própria humanidade, dos encontros, dos vínculos, do sentir. Sem o vínculo humano, sem o vínculo terapêutico, a escuta se torna técnica, sem real significado e intenção. Isso não significa aversão à tecnologia. Ela pode ser um apoio necessário quando usada com consciência, pois pode oferecer orientações, promover reflexões e facilitar o acesso a informações sobre saúde mental. É fundamental reconhecer o limite entre o apoio digital e o cuidado psicológico. A inteligência artificial pode ajudar a pensar, mas não pode ajudar a sentir. Pode oferecer palavras, mas não pode oferecer presença. O aumento do uso de IAs como “terapeutas” nos convida a refletir sobre algo muito maior: o quanto estamos carentes de vínculos reais, de tempo, de escuta, de afeto, e o quanto estamos na urgência de respostas imediatas. A tecnologia, por mais avançada que seja, não substitui o olhar acolhedor e o vínculo curativo das relações genuínas. A terapia é feita de encontros, e cada encontro é um espaço seguro onde podemos falar sobre qualquer sentimento, comportamento ou pensamento sem julgamento, com sigilo ético e acolhimento diante do sofrimento de cada pessoa. Talvez o grande desafio contemporâneo seja esse: reaprender a se encontrar. Usar a tecnologia a nosso favor, sem permitir que ela ocupe o lugar da presença. Porque, no fim das contas, o que cura não é a resposta esperada e desejada, é a escuta que acolhe com responsabilidade, profundidade e intenção. E isso continua sendo, e sempre será, algo profundamente humano. NILIANE BRITO, PSICÓLOGA 2 8 NOVEMBRO’ 2025 YACHT MAIS

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